Volto para casa a pé e à noite, como fiz inúmeras vezes sempre que saio à noite para beber. Em uma das ruas escuras e apertadas pelo caminho ouço o som de unhas na pedra e olho para trás. Está um Pitbull ferido de morte, com o ventre rasgado. Cai com um baque, não se aguenta mais nas patas...
Faço que não vejo e sigo em frente.
Vejo um homem, pobre, sujo, velho, com a barba de 5 dias, com a pele escura e curtida pelo sol até virar couro, com o pescoço rasgado. O sangue a correr que nem água. Olha para mim sem esperança, tentando ignorar a ferida como se assim ficasse menos crítica. Vejo o terror a crescer, a possuir-lhe a face. Sinto o alívio da certeza de ele já não ter força, nem tempo, para ser qualquer tipo de ameaça para mim. Penso em chamar uma ambulância mas asseguro-me que não vale a pena, não há nada que ninguém possa fazer por ele. Ele também o percebe e em pânico corre a segurar-se na parede mais próxima e com um baque cai, encostado a ela...
Faço que não vejo e sigo em frente.
Oiço uma criança gritar: -"Disseste-me que não tinhas ficado ferido!!!". O choro abandonado, que presumo, em cima do cadáver...
Faço que não oiço e sigo em frente. Aperto o passo porque sou um covarde.

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