Havia um tempo em que sempre que a minha mãe lavava o cabelo e aparecia à minha frente eu abalava a fugir para me esconder dela. Nem era preciso lavar o cabelo, bastava vê-la de cabelo solto para eu a detestar. Escapava-me o porquê, hoje não a detesto directamente, mas odeio vê-la assim, desarmada. Talvez demasiado humana e frágil para o meu gosto.
A minha mãe tem uma vontade de ferro, é o sargentão lá de casa e, também, a estratega "militar". Quando era nova, e ainda não tinha ficado docemente mole, tinha uma aura duramente marcial. Eu adorava o estilo. Tanto quanto o temia. Nada passava por aquela força. Mas quando a via assim tão frágil, percebia a fragilidade humana. Não a desejava.
Eu, o sacana, ainda era mais duro que ela. Era a minha resposta à sua marcialidade. Ela era enfermeira parteira, trabalhava por turnos, assim, quando precisava tirar férias não precisava das as meter. Fazia trocas e trabalhava semanas a fio, só vinha casa para dormir. Quando voltava, para fazer as férias comigo e com os meus, eu fazia-lhe exactamente o mesmo. Fugia, escondia-me, rejeitava-a, ela não tinha o direito de me deixar sozinho.
Obrigar-me a reformular todo o meu mundo e depois deitar a baixo toda essa reformulação e esperar começar da ponta onde acabado.
Friday, January 4, 2008
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